sábado, 24 de junho de 2017

CONTO: "Expectativas" de Heitor García

Meu povo lindo! Tudo bem com vocês? Novidade aqui no blog. Dessa vez trago um presente, um conto muito bacana do meu amigo e colega da Letras, Heitor García. Apreciem...
E por mais que seu estômago grunhisse como um cão desolado, Linda não jantou naquela noite. Tinha força suficiente – porém, interiormente, questionava-se até quando duraria - para ir à cozinha e preparar algo para si, mas naquela noite, especificamente naquela noite, ela permitiu que os minutos voassem, juntamente com o vento que lhe batia os cabelos. Como chegara à varanda? Não fazia a mínima ideia, embora a sensação de abraçar o chão, sete andares abaixo, fosse um atrativo mais que convidativo.
“Por que eu, Senhor?”, repetiu pela trigésima vez só naquele ano. A vida de Linda não foi uma das melhores, devo admitir. Filha da enfermeira mais procurada nos plantões passou os primeiros anos da vida aos cuidados da vizinha, Dona Carmen, a costureira, que embora tivesse jeito para cuidar de crianças, suas habilidades e reflexos não eram suficientes para administrar oito.
Linda nunca culpou sua mãe por deixá-la com a vizinha. Na verdade, ela até gostava da ideia, pois jamais apanharia de Dona Carmen. Sempre que se danava, escutava um “Vou contar pra sua mãe!”, mas não ia muito longe, afinal, Dona Carmen já tinha seus abençoados 65 anos e sofria de Alzheimer. Mas sim, Linda nasceu uma criança vingativa. Talvez tenha sido pelo fato de, no primeiro dia de vida, ter ouvido sua mãe contar para a colega de profissão que o miserável do pai tinha fugido para não assumir a criança; Ou quem sabe, tenha sido o fato de nunca ter tido uma figura paterna presente – sua mãe era órfã e Dona Carmen só tivera meninas - em toda sua infância. Porém, ela não admitia... A não ser, quando discretamente secava as lágrimas ao assistir filmes aleatórios da locadora perto de sua casa com seu filho. Não existiam mais: a locadora nem as Quartas de filmes.
Ainda da varanda, ela fitou a sala de estar que ainda estava com aquela faixa imensa, enfeitada de letras douradas, estampando os dizeres: PARABÉNS, LEONARDO! FUTURO MÉDICO DA FAMÍLIA!
A adolescência foi seu período de maior aproximação com outras pessoas. Atraída pelos ideais alheios, Linda foi tomada pelo conceito de Família, e mais cedo do que esperavam, já estava formando a sua, com seus 23 anos, ao lado do estudante de Medicina, Guto. Agora, quarentona, redireciona todas suas orações ao seu falecido esposo. Causa? Câncer no cérebro.
No corredor, a empresária analisou as fotos na parede... “Preciso ligar pra Maria, já tem poeira suficiente”... E caminhou por entre os tempos. Linda sempre gostou da casa cheia de pessoas e com muita festa, fora por tal motivo que convidara todas aquelas pessoas para comemorar a aprovação do filho de Marta na faculdade. Mas o problema de Linda era que além de vingativa – a raiva do pai a fez crescer profissionalmente -, ela colecionava leques de expectativas. Expectativas de que sua casa fosse suficientemente grande para seus convidados; Expectativas de que houvesse comidas e bebidas para todos eles; Expectativas que seu filho um dia pudesse ser aprovado em Medicina e experimentasse todos aqueles doces dispostos à mesa; Expectativas de que seu filho, Victor, saísse do coma induzido e atravessasse a porta no fim do corredor.


Gostaram? Prometo trazer mais...beijo na alma!

4 comentários:

  1. Olá! = )
    Que conto lindo! A melhor forma de vingança é mostrar realmente o quanto nós podemos chegar longe e sermos bem sucedidos quando o resto do "mundo" nos vira as costas. Amei a positividade do sentido de vingança e expectativa empregados pelo narrador.

    Gostei muito.
    Abraço.
    Diego, Blog Vida & Letras
    www.blogvidaeletras.blogspot.com

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  2. Ual, que massa. A vingança dela foi de cometar os mesmos erros que os outros cometeram com ela. Uma inversão de valores positiva.
    Show!

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  3. É uma pena ser apenas um "conto", já que se encontram referidos temas de saúde (mental) que são sempre bons de ser explorados, já que são próximos a todos nós e bastante deixados de lado em virtude da saúde física na sociedade em que vivemos, onde uma maleita visível é considerada real e uma invisível considerada inexistente, quando é esta última a mais perigosa.

    Heitor, espero que pegues na Linda e nas restantes personagens e escrevas mais sobre estes temas, com a coragem e a sensatez que sei que tens. A premissa é boa o bastante e os temas algo em que vale a pena investir.

    Boa continuação de blog!

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  4. Rodrigo, como vai? Gostei de verdade do conto do Heitor! Gostei do tom reflexivo, com um certo tom melancólico ao meu ver, na narrativa. Gostei muito; texto conduzido de forma sucinta e bastante original! A personagem Lina também me surpreendeu bastante pela sua personalidade controversa.

    E também não são raras as vezes que exageramos nas expectativas, não é mesmo?! haha

    Abraço.

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